cartas a ninguém #3
#8
2 de março de 2002
te envio essa carta para avisar que estarei aí na semana que vem. quando receber essa carta, eu provavelmente já estarei a caminho. não sei se vou de carro ou de ônibus, mas isso não importa muito. não consigo mais ficar nesse apartamento. vou morar umas semanas com você. não dá mais. lembra quando eu te liguei para dizer que as coisas iam bem, mesmo com colega de quarto? então, foi isso. eu devia ter confiado no meu instinto desde o começo. tudo revirou de cabeça pra baixo. o cara era meio esquisito, mas até aí, quem não é, né? ele não era esquisito como aquele seu vizinho, o negócio é que ele parecia ser normal; talvez disfarçasse bem. tinha uma namorada, saía aos finais de semana, nas quartas até assistia aos jogos comigo no bar embaixo do prédio. acontece que, às vezes, ele parecia esquecer que era um cara normal e mudava completamente. eu olhava para ele, e ele olhava para o nada; às vezes até olhava em meus olhos, mas dava para ver que não prestava atenção em mim e, então, se tornava absorto, calado. eu perguntava o que havia acontecido, se eu o tinha ofendido com alguma piada, mas ele dizia que não, que não era nada disso. um dia, cheguei em casa mais cedo que o normal, e ele estava sentado no sofá da sala, assistindo televisão. enquanto eu bebia água na cozinha, perguntei o que estava passando de bom, e ele não respondeu. o cara estava vidrado na tv, mas não falava nada, não estava prestando atenção. imaginei que fosse mais um desses episódios de introspecção. desliguei o aparelho, e, mesmo assim, ele não se moveu, não reclamou. sacudi seu ombro. ele piscou algumas vezes, como se acordasse de um transe. perguntei o que aconteceu, perguntei se ele estava passando mal, se precisava de alguma coisa. ele respondeu que não. perguntei novamente o que tinha acontecido. não era nada parecido com antes. ele apenas respondeu que havia descolado da realidade. disse isso, assim mesmo. não sei se esses episódios aumentaram com o passar do tempo ou se eu passei a percebê-los melhor. de qualquer forma, a partir desse dia, eu o encontrava pelo menos uma vez na semana nesse estado. cheguei a comentar isso com alguns amigos que já haviam ido ao apartamento, e eles riram, disseram que não era nada, que poderia ser muito pior, como o colega de quarto do Edu, que não dava descarga quando destruía o banheiro. te conto tudo isso porque tenho que contar. sei que você não se importaria se eu só batesse na sua porta pedindo abrigo por uns dias. nesse ponto, tenho que mencionar que meu colega de quarto era bem organizado, bem mais do que eu. esse apartamento era de uma prima dele, e ele estava morando lá há alguns anos, enquanto essa prima vivia no exterior. não havia motivos para ele morar com alguém, afinal, não pagava aluguel, e as despesas domésticas eram relativamente baixas. mesmo assim, colocou um anúncio no mural da faculdade oferecendo um quarto. o apartamento é um daqueles bem grandes, construídos há muito tempo, com o pé direito alto e passados de geração em geração na família. ele tinha dois gatos, um preto e um branco, mas não os tratava com excessos e carinhos, apenas com zelo. as regras de convivência? apenas uma: retirar os lixos todos os dias. ele não tolerava que a areia dos gatos estivesse suja nem que os lixos dos banheiros, da cozinha ou qualquer papel e embalagem ficassem esquecidos em cima da mesa e na pia do banheiro. de resto, não se incomodava com o barulho, com os horários, com as pequenas intrigas domésticas. uma faxineira vinha uma vez por semana e lavava os banheiros, a cozinha e tirava o pó. já cheguei até a atrasar minha parte da conta de luz. ele não reclamou. quebrei o copo do liquidificador. ele mesmo pagou um novo do próprio bolso. eu não entendia, mas também não reclamava. na semana passada, saí para uma entrevista de emprego. eu estava bem nervoso nessa manhã, então não consegui dormir direito. acabou que acordei mal e atrasado. desesperado para não perder o horário, saí correndo para tomar um banho e passar um café. nesse processo, sei que deixei a toalha pendurada no box e o coador largado na pia. lembro também de ter deixado o ferro de passar no chão, próximo ao sofá, pois esqueci de passar minha camisa na noite anterior. deixei minha bagunça pelo caminho, sabendo que o irritaria, mas eu voltaria cerca de duas horas depois e arrumaria tudo. ao abrir a porta da sala, depois de voltar da entrevista, encontrei as luzes apagadas, a casa limpa e meu colega de quarto enforcado no meio da sala. imagine. eu ainda estava eufórico, pois havia passado na entrevista e viria a começar o trabalho no dia seguinte. deixei minha pasta cair no chão e corri até ele. tive que subir numa cadeira para desamarrá-lo da corda. não sei como, mas ele havia cavado um pequeno buraco no teto até achar uma viga de metal e, assim, conseguir amarrar a corda. no chão, um banquinho de plástico. na televisão, um papagaio de espuma comentava a receita do dia. na minha garganta, outro nó. a ambulância demorou a chegar, ou talvez não tenha demorado, já não sei. fiquei vários minutos sentado no canto da sala, observando o corpo dele. caminhei até seu quarto à procura do celular. não sabia para quem eu deveria ligar. o cara nunca me falou muito da família. eu sabia que sua mãe havia morrido muitos anos antes e que seu pai vivia em outro estado, mas não sabia se eram próximos. anotei o número da namorada dele e liguei diversas vezes, sem sucesso. em cima da cama, encontrei um bilhete. dizia o seguinte:
minha prima não volta até o final do ano. não precisa pagar o aluguel. ela está ciente de tudo. dê comida aos gatos e retire os lixos.
e mais nada. não que eu esperasse uma grande declaração para mim ou algo do tipo, mas nenhuma menção à família ou à namorada? ou que fosse uma carta de arrependimentos e lamúrias, ou que fosse um manifesto contra a humanidade. nada. apenas um bilhete escrito com a caneta que ficava na sua gaveta, em um papel qualquer. a ambulância levou seu corpo, dei uns dois depoimentos à polícia e não consegui dormir naquela noite. sei que é inevitável considerar que talvez eu tenha certa culpa, mesmo que ínfima. a gente se pergunta essas coisas, não é? não sei o que o levou a isso. encontrei a namorada dele no enterro. foram poucas pessoas, e eu não conhecia nenhuma, com exceção a ela. não sou de chorar, mas não consegui me segurar. chorei copiosamente, como não chorava há muito tempo. senti o olhar de pena de todos. até a namorada dele me consolou. não sei o que me deu. ela parecia calma com a situação, como se já soubesse que aquilo aconteceria ou talvez estivesse apenas muito dopada para transmitir qualquer emoção. ela me contou que ele mencionara suicídios na família, um primo e um tio-avô distante. o primo foi em uma piscina. o tio, em um escritório de uma agência de publicidade. nesse dia, voltei para casa e dei uma grande faxina. terminei já de madrugada. só então me dei conta de que os gatos haviam sumido. as telas nas janelas estavam intactas. sei que não os deixei escapar, pois, quando saí para o enterro, ambos estavam embolados no sofá. procurei, procurei e não os encontrei. nunca mais os vi. a comida deles estava intocada nas vasilhas. nenhum cocô na caixa de areia também. essa foi a única noite em que dormi. desde então, não consigo mais. fico lembrando dele sentado na frente da televisão, olhando profundamente para a tela iluminada. passei a ver vultos de madrugada e tenho certeza de que são os gatos ou seus fantasmas. já era. assim que eu terminava de comer, já lavava as louças. não passava mais de doze horas sem retirar os lixos. algo dentro de mim me fazia sentir culpado caso qualquer coisa estivesse fora do lugar. tudo muito óbvio, como pode. percebi que a situação estava fora de controle quando me vi cortando as unhas na janela do banheiro para que nenhuma lasquinha tivesse a chance de cair no chão e ficar lá esquecida. te escrevo tudo isso sentado à mesa da cozinha. pedi demissão. planejo te encontrar em alguns dias, mas minhas roupas já estão passadas e organizadas dentro da mala.
deixarei comida para os gatos.
um abraço,
M-




Parabéns, quando aconteceu um certo _twist_ vc conseguiu me deixar gag