cartas a ninguém #2
“Mas tu não eras o melhor em desvendá-la?”, Sófocles. Édipo Tirano. Tradução de Leonardo Antunes. São Paulo: Todavia, 2023, v. 440.
#5
Buenos Aires, 6 de junho de 1983
Vai para o caralho. Você e o Cruz. Escrotos. Estou cansada de vocês. Chega. Não me convidem mais para seus saraus e para as peças de teatro. Também não quero mais ver aquele amigo de vocês, o tal do Enrique. Outro merda. Chega. Passarei aí na quarta-feira para pegar minhas coisas; separem meus papéis, minha máquina de escrever e deixem a chave do meu escritório com o porteiro. O casaco do Cruz ficou em Montevidéu. Ele que vá buscar.
Devolva-me também os meus livros. Sei que Los días de la noche, Tiempo de abrazar e La trompetilla acústica estão com você. Nunca os leu, nem os lerá.
Diga ao Álvaro que me pague o restante da semana. Buscarei o envelope na quarta-feira. No armário verde, há uma caixa com as coleções de Pizarnik e Madariaga. Entregue essa caixa a ele, fará bom uso.
Repito, e preste bastante atenção: vocês estão proibidos de publicar qualquer coisa com o meu nome. Encontrem outra editora. Não quero nossos nomes lado a lado. Depois de um mês de reuniões, depois de toda aquela dor de cabeça com a Associação, me dejaron en la estacada. Andei essa cidade toda, como uma imbecil, batendo de porta em porta, pedindo financiamentos, cobrando favores. Tudo isso para nada.
Vocês são dois canalhas. O Cruz mais do que você, e, ainda assim, eu conseguiria perdoá-lo antes de perdoar você. Sabemos que você não vai pedir desculpas, não é? Covarde.
Não me mande mais cartas. Não ligue para minha irmã. Não apareça na minha rua. A viagem que faríamos está cancelada. Resolva-se com o hotel.
Helena T. Navarro.
#6
Delfos, XX de ————————
Majestade,
Venho relatar um acontecimento trágico que requer vossa atenção.
Há doze luas, a caravana de artífices, saída de Atenas em direção ao vosso reino de Tebas, foi atacada.
Ocorre que esta caravana transportava, entre vários itens, o vaso de cerâmica tão aguardado pela Vossa Majestade Jocasta.
Alguns dias após a partida, esses pobres sujeitos regressaram em estado deplorável.
O mais velho entre eles chegou a ser socorrido por nossos guardas, às margens de nossos muros, mas logo sucumbiu.
O mais novo retornou à Delfos em estado de transe e não se comunica com clareza. Encontra-se agora sob os cuidados da Pítia.
Os demais homens não regressaram.
Entre vapores e poções, o rapaz confessou à Pítia, em balbucios e tremores, que o ataque à caravana foi perpetrado por uma criatura jamais vista. Não sabemos se este relato é fruto de delírios ou de uma visão concedida pelos deuses.
A criatura é descrita como um felino portador de asas exuberantes, apoiado sobre quatro patas com garras feito adagas; ao fim de seu corpo, ostenta uma longa cauda de serpente. O jovem jura que a fronte dessa criatura, sustentada por um pescoço leonino, é a de uma mulher: lábios, cabelos e olhos femininos.
Quimera dos deuses, flagelo dos homens.
Não sabemos se tal abominação ainda ronda a estrada que leva à Tebas. Guardai-vos, Majestade. Embora seja dotada de garras monstruosas, sua maior arma parece ser a voz. Adverti vossos soldados para que não respondam às indagações desse ser vil; nela, tudo é enigma.
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#7
São Paulo, 2 de outubro de 1993
Meu caro,
É urgente. Precisaremos do seguinte:
2 (dois) rolos de corda;
2 (dois) 3 tabelas;
4 (quatro) pares de refletores;
2 (duas) mesas;
6 (seis) cadeiras;
1 (uma) lona (4mx4m? conferir com a Elis); e
4 (quatro) latas de tinta (preta ou cinza, como achar melhor).
O que mais for necessário, aviso assim que chegar aí. Acredito que a prioridade é essa.
Você e o Antônio estão se esforçando, e sei que acreditam no projeto, mas tenho que ser sincero: será um fiasco.
O Cláudio é horrível, o Polônio também, e o Horácio tem idade para ser o Rei, mas vocês fizeram questão de não dar o papel a ele. Não sei por quê, mas imagino bem as intenções do diretor. A menina que faz a Ofélia é perfeita para o papel, pois não precisa atuar, já é a própria vítima desse circo que vocês montaram.
O Hamlet também é perfeito para o papel, já que ninguém sabe o que se passa na cabeça dele. Falta aos ensaios, aparece bêbado por aí, e fiquei sabendo que tentou passar a mão na figurinista. Infelizmente, o cretino é um ótimo ator. Talvez o melhor entre vocês. Mas, assim, não dá: chutem ele da peça. Vai trazer mais problemas que não compensam sua atuação.
Por outro lado, os Coveiros de Ofélia são espetaculares. Meia dúzia de falas entre os dois e tiram de letra. Também gostei do velho que faz o Fantasma do Rei.
Ainda não entendi por que fazer Hamlet. Vocês sabiam das dificuldades e, mesmo assim, foram atrás. Eu disse que deveriam ter feito A Megera ou Muito Barulho por Nada. Mas quem sou eu para dizer algo?
Pego o ônibus amanhã cedinho, e vou para casa daquele meu primo, em Petrópolis. Na semana seguinte, vou de carona com um amigo até aí e finalizamos os últimos ensaios.
Caso venham a cancelar a peça, deixe um recado na telefônica do meu primo; assim, pelo menos, posso ficar uns dias a mais no Rio.
Abraços,
do seu Rosencrantz


Eu acho que o rei de tebas tinha que dar uma passeada nessa estrada também
eu preciso que um artista desenhe a criatura da segunda carta