cartas a ninguém #1
Contudo, esta é uma carta - Andrade, C. D. de. (1951). Carta. In Claro enigma. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio
#1
Morrinhos do Oeste, 15 de abril de 2025.
Prezado,
Informamos que o manuscrito Crítica à Elegia de Santa Tereza foi desclassificado do 11º Concurso Literário da Biblioteca de Morrinhos.
Após apreciação pela banca qualificadora, constatou-se que o conteúdo apresentado não atende às diretrizes estabelecidas no edital, em especial ao disposto no parágrafo 6.2.2.
Em análise documental e pesquisa bibliográfica, não foi possível localizar a obra Elegia de Santa Tereza em arquivos públicos, bases editoriais ou entre as edições listadas no anexo do formulário de inscrição. Ademais, os trechos e as citações empregados no manuscrito não apresentam fontes verificáveis, revelando inconsistências quanto à autoria e às datas de publicação.
Ressalta-se, ainda, que as referências a obras atribuídas a determinados autores, também por nós desconhecidos — “V. C. de Souza Melo e Cruz”, “José Maria Campos Cunha” e “Helena Torres Navarro” — não puderam ser confirmadas.
Não obstante a desclassificação do manuscrito submetido, a banca avaliadora considera pertinente registrar elogios à elaboração argumentativa do texto apresentado. Parte do júri manifestou expressivo interesse pela proposta literária e pelo exercício crítico desenvolvido. Entretanto, houve divergência entre os membros avaliadores, tendo alguns deles classificado a Crítica à Elegia de Santa Tereza como “uma piada de mau gosto” e “um delírio juvenil de aspirações borgianas”.
Aguardamos futuras inscrições e desejamos o melhor em sua jornada literária.
Cordialmente,
Prefeitura de Morrinhos do Oeste.
#2
São Paulo, 25 de dezembro de 2003.
—,
Peço que me pague. Pague meu dinheiro. Já não me importo com os juros e com a correção monetária. Também não esperaria de você algum bom senso em me pagar qualquer valor a mais que aquele que te emprestei. Pague meu dinheiro. Não me interessam mais suas desculpas, seu cachorro doente ou suas dívidas depois do acidente de carro. Pague meu dinheiro. Não gostaria de maiores represálias ou do escalonamento dessa situação. Não quero alugar um carro de som para que passe em frente ao seu trabalho te cobrando ou te maldizer entre nosso círculo de amigos. Pague meu dinheiro. Esse é o último aviso.
Com desprazer,
Mercedes
#3
Curitiba, 19 de setembro de 1988.
Querido,
Não entendi o que quis dizer.
Escreva-me mais, sinto saudades. A mamãe vai bem. Os meninos crescem a cada dia mais, já já estão do seu tamanho.
Mil beijos no coração,
Seu amor.
#4
Brasília, 22 de março de 2026
Aguarde-me, irei visitá-la.
Consegui que aprovassem minhas férias. Como havia dito na semana passada, estava em um impasse com minha chefia. Temos passado por várias mudanças aqui no setor, e a escala de férias se perdeu nesse meio tempo. Menti, sim, mas não me orgulho. Disse que teria que visitar uma tia-avó distante ou qualquer coisa do tipo e fiz todo um drama em volta dessa situação. Funcionou. Comprei as passagens ontem. Apesar do aeroporto ser distante da cidade, prefiro viajar de avião a pegar um ônibus. Mesmo sendo menos de duas horas (imagino que, se somasse o tempo que se perde entrando e saindo do aeroporto, realmente seria mais rápido pegar um ônibus), gosto de voar. Sinto medo apenas na hora do pouso; sempre imagino os pneus estourando ou entortando, e então o avião sairia derrapando, explodindo em milhares de pedaços ao chocar-se com outra aeronave.
Não sei se sua agenda estará livre, mas comprei ingressos para assistirmos à orquestra. Tocarão o Bolero de Ravel novamente. Você sabe o quanto o acho enfadonho, mas faço esse esforço. Me lembro de sua mão segurando meu pulso enquanto os trombones antecipavam o êxtase dos segundos finais. Ouviria o mais longo crescendo da humanidade quantas vezes fossem necessárias para repetir aquele momento. Pois bem, não marque nada no primeiro final de semana de maio, já temos compromisso.
Tenho pensado bastante na história que você me contou na última carta. Ainda estou confuso quanto ao final. Não acho que foram justos com você. Sei que temos que olhar o outro lado, dar a outra face, mas, nesse caso, é difícil concordar com essa indulgência. Não pude estar ao seu lado; caso contrário, teria brigado, levantado a voz, apontado o dedo na cara. Ou não. Nunca sabemos como agir nessas situações. É muito fácil reencenar cenários durante o banho ou antes de dormir e imaginar o que se teria falado, como, quando. Já discuti algumas vezes contigo dentro da minha cabeça e, mesmo nos meus cenários utópicos, não consigo vencê-la. Você me desarma, sabes bem.
Te envio essa carta junto do cartão-postal que compramos aquele dia. Fiquei com os dois, então lhe devolvo o seu agora.
Um beijo e dois abraços,
S.


o destinatário da primeira carta foi injustiçado pela burocracia !
o retrato que eu te dei.. se ainda tens não sei.. mas se tiver.. devolva-me..