cartas a ninguém #4
brincadeira epistolar
#9
————, — de —— de 20XX
não, por favor, não insista. seja um homem simples. permaneça aí, cave os escombros. te escrevo de longe, além do espaço; não do tempo. não me entenda mal, sei que não digo o que lhe convém. não omito, tampouco revelo. reviro meu íntimo e, por isso, me imponho, mas receio que não me entendas. o cerne da compreensão é um espaço muito pequeno, ínfimo, perceptível apenas quando a íris se encontra com o olho mágico. pequena retícula incrustada na madeira. através dela é possível contemplar a imagem distorcida pela lente côncava (ou convexa?) e, caso tenhas coragem de espiar, verás aquilo que sou. confie no que te digo: aceite a recusa e vá para casa, chegarás tarde. mantenha-te alheio. não tomes isso como descaso. saiba que ainda sinto formigando em minhas mãos o contorno dos teus dedos, tuas danças manuais. sinto o arrepio de minhas coxas na madrugada. entretanto, tudo para aí, congelado na ausência de sonhos. queime este bilhete assim que terminar de lê-lo. não deixe rastros. talvez nos encontremos novamente; até lá, aguarde os anjos de Avalon.
com carinho,
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#10
————, — de —— de 19XX
Não acredites que esta carta seja a norma. Nunca foi e nunca será. Em outras circunstâncias, apenas te ignoraria ou talvez até chegasse a atormentar-te por tal disparate. Contudo, acredito que, durante toda a minha existência, jamais recebi tal proposta epistolar. Digno, portanto, negá-la também por meio do papel e da caneta.
Sendo a intenção mais importante que a forma, saiba que teu pedido chegou até mim, ainda que desconhecesses o endereço ao qual deverias remetê-lo. Quanto ao motivo de minha recusa, convém expô-lo, embora creia que não o compreenderias nem em milênios. Tua cabeça é humana demais para vislumbrar aquilo que está além de teus olhos. Não obstante, essa não é a questão. Homens mais ignorantes já vieram até mim com seus melindres e suas angústias, e os acolhi de bom grado. Terras? Receberam pastos além do sol. Fama? Conheces dezenas deles. Dinheiro? Dou-lhes aos montes. Poderiam ir mais longe, mas são estúpidos demais para isso. Perigosos são aqueles que me pedem a luz.
Acontece que teu caso é outro. Veja bem, houve épocas em que aceitava todos os tipos. Que viessem até mim; veríamos onde poderíamos chegar. Os tratados eram simples, e os métodos também. Sangue nas palmas das mãos, caminhos cruzados, um choro profundo na madrugada. Venham como são — invejosos, rancorosos, prenhes de degeneração, belos em seus pecados; criados à figura do Pai. Venham.
Tu, não. Fique. Não me comoves. Não cometeste pecados vis; não desrespeitaste o solo em que pisas; não desejaste a mulher do próximo; não profanaste tua família. Antes o tivesses feito — não. Tua alma é insossa. Sou obrigado a escrever na língua que sabes, e sabes apenas uma. Há traduções melhores, mas, em teu idioma, essa é a palavra: insossa.
Não que eu precise justificar-me. Poderia ignorar-te pela eternidade e reclamar tua alma no dia de teu julgamento. Iria até o tribunal e diria que não cometeste o pecado; que não buscaste a excomunhão, mas a quiseste. Pecaste em pensamento, como manda o Livro. Conhecendo o Responsável, garanto-te que minha prece seria acatada.
Contudo, venho até aqui para apresentar-te teu caso: tua alma é cinza. Nem apodrecida pela perversão, nem elevada pela bondade. Nomeio-te para que saibas que é contigo que falo, Carlos. Falta-te o ranço, o suor, algo de acre dentro de ti. Porém, tampouco compensas do outro lado da balança: não vives em comunhão com os teus nem carregas contigo a paixão da alma. Vagas entre os dias; comes sem apetite; fodes sem ereção. Não deixas legado e talvez até faças um favor a todos ao não perpetuar tua indiferença. És um peso na Terra.
Livra-te disso. Pinta tua alma com barro e sangue ou ilumina-a com a benevolência. Pelo menos assim, poderia odiar-te com razão. Até lá, poupa-me de tua ninharia. De almas pequenas, o inferno está cheio.
Atenciosamente,
— Ele
#11
tradução livre das cartas de Wolfgang Amadeus Mozart, dos 14 aos 16 anos, à sua irmã
Milão, 10 de fevereiro de 1770
FALE do lobo, e verás suas orelhas! Estou muito bem e impacientemente aguardando uma resposta tua. Beijo a mão de mamãe e envio-te um bilhetinho e um beijinho; e permaneço, como antes, teu — o quê? Teu já conhecido irmão brincalhão,
WOLFGANG na Alemanha, AMADEO na Itália.
DE MORZANTINI
Milão, 27 de outubro de 1770
MINHA QUERIDÍSSIMA IRMÃ, —
Sabes que sou um tagarela, e assim era quando te deixei. No momento, substituo isso por gestos, pois o filho desta família é surdo e burro. Agora, eu devo trabalhar em minha ópera. Lamento não poder enviar-te o minueto que desejas, mas, com a vontade de Deus, talvez na Páscoa poderás ver a música e a mim.
Não posso escrever mais — Adeus, e reza por mim.
Milão, X de novembro de 1772
QUERIDA IRMÃ,
Espero que tenhas ido visitar a dama — sabes quem. Peço-te que, quando a vires, lhe transmitas meus cumprimentos. Espero, e não duvido, que estejas em boa saúde. Esqueci-me de contar-te que encontramos aqui Signor Belardo, um dançarino que conhecemos em Haia e em Amsterdã — a mesma pessoa que atacou Signor Neri com uma espada, por acreditar que ele fosse o culpado por não conseguir permissão para dançar no teatro. Adieu! Não te esqueças de mim, sempre teu fiel irmão.



