pós finados
o passado sempre volta. dessa vez, permiti que voltasse. cai uma chuva torrencial enquanto dirijo a caminho do cemitério. estaciono próximo às barraquinhas de flores, enquanto me pergunto se deveria ter trazido alguma coisa. não sei a etiqueta fúnebre, talvez seja desnecessário, ou talvez vá do gosto do morto. caminho a passos largos, guarda-chuva em mãos, evitando as poças, sem saber que isso será inútil. daqui a uma hora, voltarei para meu carro completamente encharcado. ao lado da administração, há um grande mapa com um labirinto circular, indicando os setores em que são divididos os bairros. anotado no meu bloco de notas, há um endereço que indica que o subsetor é o de número seis. atravesso os portões e passo cerca de meia hora caminhando para lá e para cá, sem encontrar o seis. chove toda a chuva do mundo. passo ao lado de uma construção marrom, que imagino ser de pedra, com uma cavidade côncava que serve de abrigo e altar para várias velas apagadas. até onde meus olhos podem alcançar, há milhares de suportes metálicos de velas enterradas no chão, ao lado das lápides. me pergunto qual a diferença entre túmulo e jazigo, e esse pensamento logo foge, voltando somente agora que escrevo. hoje faz uma semana do dia de finados. há meia dúzia carros rodando por entre as ruas, mas, pessoas caminhando, apenas eu. faço um percurso confuso em cima das covas, procurando o número exato, entre códigos alfanuméricos. tudo nessa cidade é cartesiano. encontro seu nome entre duas datas que se deformam diante dos meus olhos. parece uma combinação de números que não deveria existir. uma data falsa sem lastro na realidade. esfrego, com a ponta dos dedos, a inscrição na pedra. meu casaco verde agora é preto de tanta água. não sei o que fazer, agora que encontrei o que vim procurar. evitei visitá-lo primeiro por medo, depois por indiferença, e agora venho pela dúvida. pequenos cata-ventos colocados no gramado, em túmulos vizinhos, rodam desesperadamente sob a força do vento. silêncio. me ajoelho e rezo um pai-nosso e uma ave-maria; a remissão dos pecados e a ressurreição da carne. talvez eu não tenha que falar nada. então busco a primícia, a semente inicial. digo que sinto saudades e pergunto se ele se lembra daquela vez, e daquela outra, e quando a gente brigou, e você pediu desculpas primeiro, e eu me senti mal — não pela briga, mas por não ter tido coragem de pedir desculpas. avanço assim, contando cada coisa que passamos, até chegar na fatídica data. nesse momento, lembro do calor que fazia, da mão da marina, da sua família, de chutar repetidas vezes um bebedouro de metal, de um ódio profundo e de uma tristeza mais profunda ainda, e falo tudo em voz alta, porque toda oração é uma prece. conto como o segundo semestre de dois mil e dezesseis é um grande borrão na minha mente, e como não lembro de nada do final daquele ano, e como dois mil e dezessete também é bem confuso e se mistura com dezoito, e como hoje vejo aqueles dois anos com uma clareza que me era impossível na época, pois, de fato, é preciso sair da ilha para ver a ilha. depois, conto tudo sobre dezenove, vinte, vinte e um etc., e te conto todas as coisas que você não pôde ver, e todos os caminhos que segui, e tudo que eu ri, e tudo que eu chorei, e como todas as pessoas que conheci depois que você se foi não sabem quem você é, mas eu sei. você nada diz. nesse ponto, a chuva já amenizou e o céu começa a se abrir. gostaria de ser religioso para acreditar que isso é algum tipo de sinal, mas, depois de uma tarde inteira chovendo, alguma hora teria que parar. é óbvio. que seja, tudo é mistério. me despeço e faço o caminho de volta sem me importar muito com a barra da minha calça molhada de lama. “não se entra em casa com roupa de cemitério” é a primeira crendice familiar de que me recordo, ensinada pelos meus avós. quantas vezes vi meus pais chegarem em casa após voltarem de enterros, se despirem diante da porta e baterem os sapatos no quintal para limpar a terra morta. prometo levar flores da próxima vez que eu for. talvez leve um cata-vento. esperava uma tristeza imensa após esse encontro que não se instalou. carrego um sentimento que não acho que tenha sentido antes. atravesso milhares de túmulos. nomes e fotos. nenhuma vala deveria ser comum. antígona estava certa. já perto do portão, volto a passar ao lado da grande pedra côncava. todas as velas estão acesas. como pode.

