Pintassilgo
Mateus 17:13
naquele tempo, ainda eram meninos. cuida do Joãozinho, meu filho, ela pedia. não precisava pedir; ele cuidava. não importava que João fosse alguns quilos mais gordo e alguns centímetros mais alto, seu filho tomava o primo nos braços e acariciava seu cabelo. quando João espetava os dedinhos nas roseiras, seu filho afagava o machucado; quando João chorava, seu filho o abraçava até que o choro cessasse em um murmúrio; quando João caía, seu filho o levantava, mesmo sem ainda saber caminhar. cuida do Joãozinho, meu filho, cuida.
naquele tempo, os três passavam as manhãs preguiçosas no bosque próximo ao riacho, próximos dos bichos, longe dos homens. Isabel vinha com o sol, embalando o filho nos braços. entrava de mansinho na casa e pousava João ao lado do primo. dormiam juntos, acordavam juntos. Isabel se despedia; voltaria em algumas horas. eram curiosos. tudo o que era vivo os fascinava, das árvores aos insetos, dos cães às lebres. rolavam na terra e na grama, entre a escassa fauna, como bichos, eles também bichos. João já balbuciava algumas palavras, repetia sons lambuzados de baba e assim pedia água; seu filho, ainda não. não havia choro, não havia fala: as respostas nos olhos do cordeiro.
foi João quem viu o pintassilgo, filhotinho como eles. trouxe o passarinho nas duas mãos. os olhos de João, um vale de lágrimas.
o que foi? o passarinho? sim, o passarinho. asa quebrada, penas encharcadas de temor. o fio da vida por um fio.
ela tomou o passarinho e o depositou em seu colo. não havia o que fazer; não cabia a ela, pobre criatura muito humana. o pintassilgo se esvai.
cuida do passarinho, meu filho, cuida.
uma gotinha de sangue na palma de cada mão. o traço mais remoto da concepção.
como seu Pai, ele toma o passarinho em suas mãos. do alto das árvores, o vento dança e os pássaros cantam.
a vida volta a correr. a testa do pintassilgo agora carmim.
João sorri.


