os queridinhos de 2025
parabéns aos livros que ganharam. aos que perderam, sigam em frente: há outros troféus.
meses atrás, eu estava sentado diante de um baralho de tarô. sem saber o que perguntar, fiz duas perguntas, mas apenas a primeira vem ao caso:
“ainda lerei um livro melhor que Os detetives selvagens esse ano?”
a resposta: eu ainda leria muitos livros bons, mas esse seria, para mim, o melhor. as cartas não erraram. um salve para meu amigo pessoal Roberto Bolaño – o escritor chileno, não o Chaves –, que dedicou sua vida a falar da América Latina, das letras e de tudo que nos corrompe.
não li muito esse ano, mas li bem. li o suficiente para não me sentir burro, mas não tanto a ponto de enlouquecer. não limitei minhas leituras a autores, nacionalidades ou interesses; apenas li o que quer que aparecesse à minha frente como sugestão, presente ou surpresa e, assim, visitei vulcões, aristocratas franceses, uns vinte países, o luto e o amor. intercalei bimestres entre leituras intensas, seguidas de aversão à literatura. o que importa é que li; li livros dos quais não entendi nada e li livros que mudaram minha visão de mundo. quero me corrigir: sim, eu enlouqueci; melhor assim.
dito tudo isso, venho aqui trazer a primeira edição, e talvez única, da premiação de melhores do ano lidos por mim. critérios completamente subjetivos, enviesados e corretos; categorias inventadas na hora e pouca disposição para sinopses e enredos. sigamos.
#1 nos charts: Os detetives selvagens (1998) – Roberto Bolaño – Editora Companhia das Letras
alguns anos atrás, passei semanas lendo os tuítes de minha amiga Morgana, declamando seu amor por um livro. até aí, tudo bem, apenas mais uma terça-feira em nossa amizade. anotei o título e continuei anos sem ir atrás deste livro. “Os detetives selvagens”, ela respondeu assim que pedi uma recomendação. li as seiscentas páginas em cinco ou seis dias. comia, trabalhava e dormia pensando em Arturo Belano e Ulisses Lima, os dois não-poetas que viajam pelo mundo de Bolaño.
acompanhamos a vida destes dois sujeitos através dos olhos de terceiros, nunca deles, e podemos apenas reconstruir o mosaico que forma a jornada da dupla. há uma trama principal intrusa dentro do livro, que aparece e some, tal qual os dois protagonistas. às vezes, passamos dezenas de páginas sem lembrar que eles existem, de tão rico que é o universo de personagens secundários que Bolanõ cria: Luis Sebastián Rosado, Pele Divina, As Irmãs Font, Xóchitl García.
vivi com eles por uma semana e agora os tenho para vida toda. até hoje penso no que exatamente me prendeu tanto, qual o elemento do livro que realmente me pegou, e não consigo responder. há uma força indomável por trás de cada página. não sei vender esse livro muito bem sem dizer apenas que você deve ler para descobrir o que há detrás da janela.
me pegou de surpresa: A mais recôndita memória dos homens (2023) – Mohamed Mbougar Sarr – Editora Fósforo
(...) e um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirá o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a Galáxia, e a mais recôndita memória dos homens. Tudo que começa como comédia acaba como tragédia. – ‘Os detetives selvagens’ de Roberto Bolaño, página 497.
minha edição está marcada com este trecho e quase todo restante da página. mesmo sendo ruim para memorizar passagens e versos, me lembrei dessa frase ao ler o título de “A mais recôndita memória dos homens” de Mohamed Mbougar Sarr. dias depois, vi um vídeo em que o Lázaro Ramos recomendava a leitura. abri a primeira página já ressabiado, acreditando que leria uma cópia descarada de Os detetives selvagens. ledo engano.
obra própria, sólida e consciente de si mesma e de Bolaño. uma homenagem a ele e à literatura. lindo. histórias dentro de histórias, dentro de diários e livros que poderiam ter saído diretamente da mente de Borges. personagens esquisitos, sinistros e proféticos. quinhentas páginas da busca de um escritor por outro escritor. ambos existem e não existem; não sei, acho que nunca vou saber.
Mohamed Mbougar Sarr começa o livro timidamente, colocando o pé na água para falar da cena literária francesa, do racismo europeu, da angústia do autor, e termina te levando pelas gerações que o trouxeram até aqui. é o livro de um apaixonado pela vida e pela escrita.
se deus pudesse escrever ele teria escrito: Autobiografia do vermelho (1998) – Anne Carson – Editora 34
não tenho muito o que escrever, não por não querer, mas por não conseguir. talvez uma das coisas mais bonitas que eu já vi. não é romance. não é poesia. é técnica e sentimento. o espírito governa em segredo. leia.
se o diabo pudesse escrever ele teria escrito: Em busca do tempo perdido – Volume 1: No caminho de Swann (1913) – Marcel Proust – Biblioteca Azul - Tradução: Mario Quintana
posso descrever todo o martírio que foi atravessar esse calvário, mas vou me poupar, e te poupar, disso. é tudo aquilo que todo mundo escreve sobre ser uma leitura difícil, confusa, etc e tal. não é um livro que eu recomendaria, mas não posso deixar de colocá-lo aqui. para lê-lo, acho que você tem que gostar de ler, não importa se rótulos de embalagens, manuais técnicos ou decretos presidenciais. você tem que gostar de ler porque, meu amigo, você vai ter que colocar a concentração para funcionar.
li apenas o primeiro volume e pretendo, pelas próximas décadas, terminar os outros seis. um dia, quem sabe. digo que, se o diabo pudesse escrever, ele teria escrito este, pois é impossível alguém ter escrito isso sem vender a alma. como? eu te pergunto: como? não sei, e talvez nem Proust saiba.
é um daqueles marcos na história, como as sinfonias de Beethoven, a descoberta pólvora e a Epopeia de Gilgamesh. que a humanidade acabe, mas saibam que deixamos nossa marca aqui, e esta foi uma delas. o fluxo da escrita é impecável. a descrição minuciosa de tudo, até atingir o âmago daquilo que se descreve, é de uma destreza ímpar. ele costura o caminho que a memória faz até o seu limite.
sabe quando nos pegamos pensando em algo, digamos, a inevitável aniquilação climática, e, por vários minutos, tomamos caminhos entre as memórias e as lembranças, sem mais nos prender ao lastro daquele pensamento inicial ou de qualquer outro elemento exterior ao ambiente à nossa volta e, de repente, estamos pensando que temos que buscar o edredom na lavanderia e nos perguntamos “como foi mesmo que eu cheguei aqui?”?. isto é Proust.
repescagem ou (todo mundo merece uma segunda chance): O apanhador no campo de centeio (1951) – J. D. Salinger – Editora Todavia
quando calouro na UnB, passei na biblioteca e peguei emprestado ‘O apanhador no campo de centeio’. não sabia nada sobre o livro, exceto toda a história envolvendo a morte do John Lennon. se cheguei à metade, foi muito. odiei o Holden. é claro, todos odeiam. talvez o personagem mais odiado depois de Humbert Humbert e Iago.
acontece que esse ano tentei dar outra chance. acho a capa com o cavalo vermelho muito bonita, então comprei o livro mais para enfeitar a estante que pela curiosidade. hoje, mais velho, ri e senti pena do Holden. apenas um menino e seu chapéu. ser adolescente é isso aí. sim, ele é um coitado, mentiroso e arrogante. um fajuto. sim. não importa.
Salinger constrói a farsa do mundo dos adultos que cercam Holden através de um ciclo sem fim, uma roda eterna de abusos. um carrossel de desgraça. é um bom livro, mas não o suficiente para justificar a morte de um dos Beatles. tudo bem, nem todo livro tem que ser uma obra-prima ou um manifesto político.
vencedor por voto popular: Te dei olhos e olhaste as trevas (2024) – Irene Solà – Editora Mundaréu
vencendo essa categoria com apenas o meu voto contabilizado, este foi um dos livros que aguardei que lançassem em 2024 e que, assim que saiu, não pude ler. sem problemas: li no segundo semestre do ano passado e gostei muito. já tinha me apaixonado em ‘Canto eu e a montanha dança’ da mesma autora, passando os meses seguintes à leitura meio obcecado por regiões montanhosas, logo eu, morador do planalto central.
há um quê de mito na obra de Irene Solà que me instiga. ela escreve como uma avó que conta um causo muito antigo aos netos, de tempos remotos em que a eletricidade já existia, mas a magia ainda era o motor do mundo. sem entrar num misticismo barato ou nos moralismos das fábulas. neste livro, ela traça a história de gerações de mulheres de uma família que sofrem as consequências de um pacto com o diabo feito pela matriarca primeira. mulheres-fantasmas de memórias antigas, que vivem em conflito com a floresta, os lobos, os homens e o Pai da Mentira. vozes distantes que atravessam as paredes de uma casa em que o tempo não habita. são menos de duzentas páginas condensadas com primor.
Menções honrosas
Krakatoa (2024) – Veronica Stigger – Editora Todavia
vulcão, magma, erupção, câmaras, caldeira, crateras, piroclastos, cinzas, escória, lava, fluxos, nuvens, bombas, solfataras, mofetas, sismos, fissuras, montanhas, ilhas, Indonésia, Sumatra, Brasil, Java, Bali, Pasolini, Kafka, Pompeia, Herculano, Etna. Krakatoa.
Distância de resgate (2014) – Samanta Schweblin – Editora Fósforo
li este em uma noite. terminei durante a madrugada, sentindo um misto de temor e ansiedade. não sou mãe e, depois deste, não seria nem se eu pudesse. protejam as crianças das rosas radioativas, sem cor, sem perfume.
Eu que nunca conheci os homens (1995) – Jacqueline Harpman – Editora Dublinense
a cada ano que passa, tenho mais preguiça de ficção científica. não que eu não goste; inclusive, faço certo esforço para consumir o gênero em doses homeopáticas ao longo do ano, para lembrar que eu gosto dele, mas a preguiça continua. quando peguei este para ler, não sabia do gênero, do enredo, de nada. duzentas páginas depois, estava preso à dúvida: o que estava acontecendo ali? cadê os homens, os bichos, os carros? cadê o mundo? o que está acontecendo?
nesses momentos, lembro que gosto de ficção científica.
é isto. leia estes livros, ou não. me recomende um livro. feliz 2026.








adorei!!! e vamos de parte 2 do Proust
krakatoa!