fragmentos
anotados em bloco de notas
SANTUÁRIOS
o corpo de Cristo espalhado nas calçadas portuguesas.
a essa hora da manhã só há cães, vagos vagantes e devotos a caminho das igrejas. sou cão, vagante, mas não devoto.
subo e desço ladeiras, atravessando a Amazonas, a Barbacena, a Álvares Cabral e os Aimorés. onipresente, estou nas Nossas Senhoras da Consolação, de Lourdes e de Fátima.
me comovem os cantos e os ritos que evocam a catequese, os terços, o pecado e o vinho.
sentado em um banco na Carlos Chagas, com Nossa Senhora de Fátima às minhas costas, contemplo Nices correrem suas corridas matinais ao redor da praça enquanto, lá dentro, Hosana nas alturas.
CORETO
Drummond sussurra em meu ouvido suas angústias em face das indecifráveis palmeiras da Praça da Liberdade.
as ondas do Edifício Niemeyer movem-se ao vento frio que racha meus lábios.
o arquiteto paira ali, impávido, como lembrete de minha cidade natal — ele também onipresente.
tímido e cercado de vendedores é o coreto na lateral da praça, que me lembra um amigo e também uma música — alpha by night alpha by night alpha by night
ESQUINA
acordei nessa manhã sem nada a temer, nada a combinar, até chegar entre a Paraisópolis e a Divinópolis.
ela sorri enquanto tira fotos do quarteirão, e o sol reflete em seu cabelo um girassol.
dentro do museu vejo igrejas, sinais de glória, muros brancos e um voo pássaro.
a presença espectral de meu xará me traz frases que o vento vem às vezes me lembrar.
saímos de lá pela janela lateral, a caminho de uma festa junina em uma praça que poderia ter sido decorada por Volpi.
nos sentamos em um banquinho, e, cercados de barraquinhas, já não sinto mais o frio inclemente, restando em nossa boca um gosto de sol.
no meio da noite, orbitando planetoides, a voz de Milton ecoa os versos que ainda esperam resposta.
AFONSO PENA
me pergunto quantas ruas Afonso Pena há no país.
quase compro um casaco peruano para combater o frio matinal, mesmo ciente de que jamais o usarei novamente.
o relógio da prefeitura marca dez e meia entre colares e cimento.
ninguém parece observar que, à nossa frente, o parque municipal pinga verde no cinza.
SOBRADO
no térreo, o saxofone de Careless Whisper embala góticos; no andar de cima, Britney e Gaga dançam sobre o veludo verde de uma mesa de sinuca; mais acima, o céu troca de lugar com o inferno.
confinado em um microcosmo da cidade, novamente subo e desço, subo e desço entre escadas que simulam ladeiras.
no meio da noite, seis figuras cruzam a ponte em direção aos perigos noturnos, para nada encontrar.


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me: gótico embalado ao som de careless whisper